Em Ibiza...
Enquanto beliscava alguns tapas e lia um livro, decidi que iria aproveitar o presente ao máximo, entendi que isso é importante e que me faria uma pessoa melhor. Sem mais essa de ficar sonhando acordada planejando o futuro ou buscando sentido para situações do passado. Nos dois primeiros segundos, enchi o pulmão de ar e corri meus olhos sobre todas as esquinas do cafe, vi coisas que antes nao estavam ali e prestei mais atenção saboreando o cheiro do lugar... até que no próximo segundo ja me flagro pensando o que vou fazer para o jantar... sim, porque uma vez que tudo ja foi visto bodiei...
Mas nao tem problema, tiro o atraso aqui na Praça Del Parc, onde é possível ficar mais de três horas sentada na mesma mesa e não desviar o olhar da paisagem... com todos esses tipos que por aqui passeiam. Como essa tia, com um traje elegante, como se tivesse acabado de sair de um anúncio de Ralph Lauren, bermuda cáqui e camiseta pólo branca... e com uma maquiagem pesadíssima, olhos bem marcados de preto, boca vermelhíssima e sombrancelha pintada a traços grossos negros, nada combinando com o cabelo loiro tingido à la amarelo. Na mesa da frente, ingleses bem vestidos comemoram o contrato recém-fechado com champagne as quatro da tarde.
Um lugar onde punks e hippies andam de mãos dadas em uma onda de paz, digamos, jamaicana. Familias com carrinhos de bêbe, mendigos e ricos excêntricos caminham pelas mesmas calçadas. Pessoas em grupo sentam nas mesinhas em volta da praça para um pate-papo... pessoas sozinhas fazem o mesmo.
É difícil ser diferente em um lugar tao cheio de manias,até com melancia na cabeça já devem ter desfilado. Mas essa diversidade não é gerada somente pela ânsia por atenção. São formas de arte ambulantes, sao quadros ambulantes, cenas de filmes, sao tendência, como se as ruas fossem páginas de revista ou melhor uma passarela. É bonito de se ver, ao som de trilhas sonoras extravagantes e únicas, que escapam dos bares ao redor, embalando os personagens dessa história. Os motivos para estarem ali são diversos... férias, fuga, trabalho, curiosidade, festas, praia...
E muita história é montada, vivida, contada e recontada nesses três meses e pouco no meio do ano. Depois disso é: juntando dinheiro que o ano que vem tem mais, jurando que nunca mais coloca os pés nessa maldita ilha ou aqueles que resolvem durante os meses seguintes só ficar vivendo da nostalgia do verão..................



Leia esse texto primeiro e em seguida o que esta embaixo.
A porta foi Londres, a dos anos 1970, e me senti Alice do outro lado do espelho. Nunca mais eu seria a mesma garota de Copacabana, que dancava bale classico, pegava jacare no mar, tatui na areia, namorava nas escadas do Bairro Peixoto e ia ao cinema no Roxy, Rian e Caruso. Tinha 23 anos e era a primeira vez que sai do Brasil. Para ficar tres anos fora. Fiquei deslumbrada com as diferencas - de clima, de arquitetura, de gente, de expectativas, de formacao de sociedade. Morei numa casa convertida, em Hampstead, no verde e silencio, me sentia no campo nessa urbe imensa e horizontal, era um semi-basement com back garden, bay window e um gato preto. Bebia cerveja de manha no pub, e passei a apreciar seus sabores diferentes, ela nao era sempre loura, e nunca gelada. Os pubs fechavam as 23hs. Programas de fim de semana eram as manifestacoes, pro e contra, nao importava. Protestar era preciso. E a praia eram os parques, onde dava pra ficar de sutia e calcinha e fazer piquenique. Os carros paravam para o pedestre atravessar. A mao inversa me obrigou a reaprender a dirigir. Roupasuja era na lavanderia publica, ninguem ensacava as compras no mercado, nao havia nem diarista, adeus as mordomias da classe media brasileira. O medico do bairro dava consulta de graca. A televisao nao tinha anuncio. Os jornais eram vendidos aos gritos na boca do metro. Entrei para um grpo de danca com uma professora austriaca que amava a Bahia e tocava piano e cuica, nos apresentamos em teatros e na rua. Em Londres, era possivel ser um amador feliz. Ninguem reparava em ninguem, os punks faziam parte da paisagem como o lorde de guarda-chuva e chapeu-coco. A vida era previsivel e louca. Trabalhei na BBC, disfarcando o sotaque carioca nas ondas curtas, e descobri que existia a Africa. Tambem descobri a banheira. O primeiro inverno europeu ninguem esquece. Dor nas costas devido ao peso do casaco de segunda mao comprado em Portobello Road, e a media inglesa achando que eu tinha alguma doenca tropical. Eu era brasileira, e me sentia muito laino-americana. Ainda fazia feijao as vezes, ams passei a comer carneiro e fish and chips. O "inverno do descontentamento" teve greve de lixo, o mau cheiro derrubou o governo trabalhista e trouxe uma dama de ferro. A loja mais visitada era a agencia de viagens do indiano. Em tres anos, fiz a Europa quase toda de carro, um Austin azul que desceu ate o Marrocos. Ia mudando a lingua, enrolando tudo, ia trocando as moedas a cada froteira na epoca em que a delicia era nao ter padroes e ficar incomunicavel. Para falar com o Brasil, tinha de encontrar um orelhao quebrado e viciado. Comprei um trailer de uns australianos num camping em Agadir e atravessei a Cortina de Ferro. Na fronteira com a Hungria, apreenderam como obsceno meu cartao postal, era o Davi de Michelangelo. A ex-iugoslava do Adriatico, com Dubrovnik, tirou-me do prumo da beleza absurda. O Austin, cansado de puxar o trailer, quebrou na estrada na Alemanha, mas o seguro four stars me levou de aviao de volta a Londres e rebocoutrailer e carro para a oficina do portugues em Camdem Town. Parecia milagre, mas era so a eficiencia de uma companhia de seguros inglesa, que cumpria o prometido em contrato.
Essa foi minha primeira experiencia de Europa. Voltei para o Brasil em 1980 com um medo danado de nunca mais ter dinheiro para sair de novo. Achava o Brasil virado pra dentro, ate hoje acho. Nem olhar pra a America Latina a gente olha direito.
Mas viajar passou a ser irresistivel e espontaneo, como respirar. Ja nao sei mais quando estou indo ou voltando. Viajo a trabalho e por prazer ha 28 anos, para todos os continentes. Em Londres vivi mais dois periodos (1990 e 1993-94). Em Paris, vivi em 2001-02. E agora, 2005, aqui estou eu na Rive Gauche novamente, perto do Jardim de Luxemburgo, num bairro que parece um cenario, num estudio do seculo XVIII, no predio em que viveu Giacometti, escrevendo por que a Europa abre a cabeca da gente, e se ter tempo pra falar de Paris.
Acredito que existam pessoas abertas e ilumidas que jamais sairam de sua casa para viver em outro lugar. E ha pessoas que vivem viajando, mas registram muito pouco, continuam com a cabeca fechada, porque tratam a viagem como esporte ou commodity. Tampouco e o destino geografico que are a cabec. Europeus e americanos que vao ao Brasil, ao Chile, ao Mexico, a Asia, a Africa, tambem aproveitam o choque cultural para balancar as conviccoes, amar outros amores, entristecer outras tristezas, preceber uma visao de mundo que parte do sul do Equador e, com sorte, tornam-se mais tolerantes, atentos, calorosos e flexiveis. Do outro lado do espelho, a gente se enxerga pelo avesso...
- Ruth de Aquino, 50 anos, jornalista.
Uns 36 nos depois e posso dizer que muita coisa continua igual. O choque foi tao deslumbrante quanto. A cerveja continua sendo servida em temperatura ambiente, o que me ensinou a apreciar um bom vinho. Os pubs continuam fechando as 23hs. E manifestacoes a torto e a direito, pelas ruas da cidade, de todos os tamanhos e sobre todos os temas. A praia continua sendo o parque, e o maravilhoso "tom de verde escuro" da grama esta para o Hyde Park assim como um belo mar azulzinho esta para o litoral de Sao Paulo. E sim ainda ficamos de calcinha e sutia fazendo piquenique. A lavanderia publica eu nao conheci, acho que depois de tanto tempo, os proprietarios dos apartamentos resolveram dar um presentinho aos seus inquilinos, uma bela maquina de lavar roupa em cada "flat". Diarista ainda eh luxo, mas uma vez por semana da pra chamar alguem pra dar uma forcinha, geralmente uma conterranea, ou uma loirinha polonesa. O medico do bairro ainda esta la. Mas a televisao hoje em dia nos regala com bons 15 minutos, pelo menos, de influencia consumista, nos intervalos de programas super bem bolados por mentes britanicas. A programacao aqui eh sempre muito interessnte, mas para o prazer do acesso, paga-se uma taxa de 120 pounds por ano! Os jornais ainda sao gritados na boca do metro e alguns distribuidos de graca, que logo depois sao usados como tapetinhos perdidos, pelas esquinas das estacoes (resquicios daqueles que ainda nao aprenderam a usar o famoso "lixo"), e desviamos de outras perolas largadas pelo chao do underground, ao som de algum artista de metro. Tem de tudo, bons e maus. Os punks ainda caminham felizes no mesmo lado da rua por onde passeiam as mamaes e seus bebes gordinhos nas ruas de Camdem Town. Tambem tive a oportunidade de descobrir a Africa e a banheira. Quanto ao inverno, amo, porque eh diferente, mas o melhor, com certeza, sao as folhas amareladas dancando no ar, ou formando um caminho especial pelas ruas no outono. Nao cozinho feijao em casa, porque ainda nao aprendi a receita, mas sempre que posso, dou um pulinho la no Barraco pra comer uma bela feijoada, uma coxinha, brigadeiro, pudim, e tudo o mais que couber no meu estomago. O fish and chips eu achei melhor aposentar para nao quebrar a balanca. E gracas a boa e nova tecnologia hoje em dia temos Skype, e tele discount e ligamos baratinho ou de graca para o brasil. Infelizmente nao comprei nem um Austin muito menos um trailer, mas a-d-o-r-a-r-I-a ter podido. No lugar comprei passagens baratissimas via Easy Jet e Ryanair e viajei bastante pela Europa.
Logo estarei de volta ao Brasil e com o coracao na mao de medo de nao ter dinheiro ou oportunidade de poder voltar para viajar mais.
Mas faco do ultimo paragrafo de Ruth minhas palavras…
Aristea Kaproulias
Liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
love youuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1
"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.''
Oscar Wilde